Fui acordado no escuro da noite com um ruído na minha janela e, ao perceber que era uma batida uniforme no vidro, como não poderia ter sido obra da natureza, fui ver se algum velhaco não havia subido pelo telhado. Afinal, eu estava no quinto andar, sendo pouco mais do que um menino na Ordem e recebendo, portanto, um quarto simples porém confortável.
A janela estava trancada e intacta, como deveria estar. No entanto, lá embaixo no cais havia uma mulher num manto de tecido negro, que parecia estar olhando para mim e, quando abri a vidraça, ela fez um gesto com o braço, para que eu descesse.
Eu sabia que se tratava de Deborah, mas estava enlouquecido, como se um súcubo houvesse entrado no meu quarto, arrancado os lençóis e começado a trabalhar com sua boca.
Saí da casa, esgueirando-me, para evitar quaisquer perguntas, e ela estava parada à minha espera, com a esmeralda verde piscando no escuro, como um grande olho no seu colo. Ela me levou consigo pelas ruas estreitas até sua casa.
Ora, Stefan, a essa altura eu achava que estava sonhando, mas não queria que o sonho terminasse. Ela não estava com nenhuma criada, criado, ou quem quer que fosse. Havia vindo até mim sozinha, o que devo dizer que não é tão perigoso em Amsterdã quanto em outros lugares, mas era o suficiente para atiçar meu coração vê-la tão desprotegida, tão determinada e misteriosa, agarrando-se a mim e insistindo para que eu me apressasse.
Como era rico o ambiente dessa senhora, como eram altos seus inúmeros tapetes, como eram bonitos seus assoalhos! E passando por prata e fina porcelana guardadas atrás de vidraças impecáveis, ela me levou escada acima até seus aposentos particulares, e ali a uma cama com cortinas de veludo verde.
Como era rico o ambiente dessa senhora, como eram altos seus inúmeros tapetes, como eram bonitos seus assoalhos! E passando por prata e fina porcelana guardadas atrás de vidraças impecáveis, ela me levou escada acima até seus aposentos particulares, e ali a uma cama com cortinas de veludo verde.
- Vou me casar amanhã, Petyr - disse ela.
- Então, por que me trouxe até aqui, Deborah? - perguntei, mas eu tremia de desejo, Stefan. Quando ela desatou o manto, deixando-o cair ao chão, e eu vi seus seios roliços apertados pelos laços do vestido, fiquei louco para tocá-los, embora não me mexesse. Mesmo sua cintura tão marcada me atiçava, assim como a visão do seu pescoço pálido e dos ombros oblíquos. Não havia uma partícula suculenta do seu corpo pela qual eu não ansiasse. Eu era um animal enfurecido preso numa jaula.
- Petyr - disse ela, olhando-me nos olhos - sei que você entregou as pedras preciosas à sua Ordem, e que não ficou com nada como agradecimento meu. Por isso, quero lhe dar agora o que você quis de mim na longa viagem até aqui e que por excesso de delicadeza não quis tomar à força.
- Mas, Deborah, por que está fazendo isso? - perguntei, determinado a não me aproveitar de nenhuma forma dela. Pois ela estava em profunda aflição. Isso eu podia ler nos seus olhos.
- Porque quero, Petyr - disse-me ela de repente e, envolvendo-me nos seus braços, cobriu-me de beijos. - Deixe o Talamasca, Petyr, e venha comigo. Case-se comigo e eu não me casarei com esse outro homem.
- Mas Deborah, por que você quer isso de mim?
Ela riu com tristeza e ironia.
- Sinto falta da sua compreensão, Petyr. Sinto falta de alguém de quem eu não precise esconder nada. Somos bruxos, Petyr, quer pertençamos a Deus ou ao demônio, nós somos bruxos, você e eu.
Ah, como seus olhos cintilavam ao dizer isso, como era evidente a sua vitória, e ao mesmo tempo como era amarga. Cerrou os dentes por um instante. Depois, pôs as mãos em mim e acariciou meu rosto e minha nuca, deixando-me ainda mais enlouquecido.
- Você sabe que você me deseja, Petyr, como sempre desejou. Por que não se entrega? Venha comigo. Sairemos de Amsterdã se o Talamasca não lhe permitir a liberdade. Iremos embora juntos, e não há nada que eu não possa conseguir para você, nada que eu não lhe dê, basta que fique comigo e que me deixe ficar junto de você, sem sentir mais medo. Com você posso falar de quem eu sou e do que aconteceu à minha mãe. Posso falar de tudo que me atormenta, Petyr, e de você nunca sinto medo.
A essa altura, seu rosto se entristeceu e as lágrimas vieram aos seus olhos.
- Meu jovem pretendente é lindo, e tudo o que sempre sonhei quando ficava sentada, suja e descalça, à porta da nossa cabana. Ele é o senhor que passava por ali a caminho do seu castelo, e a um castelo ele me levará agora, embora ele fique em outro país. É como se eu estivesse entrando nos contos de fadas que minha mãe me contava. Agora serei a condessa, e todos aqueles versos e canções irão se tornar realidade.
- Mas, Petyr, eu o amo e não o amo. Você é o primeiro homem que amei, você que me trouxe para cá, você que viu a pira na qual minha mãe morreu, você que me banhou, me alimentou e me vestiu quando eu não conseguia fazer nada disso sozinha.
Eu já havia perdido as esperanças de sair daquele quarto sem tê-la. Eu sabia. No entanto, eu estava tão fascinado pela menor curva dos seus cílios ou pela minúscula covinha no seu rosto, que deixei que ela me puxasse não para a cama, mas para o tapete diante do pequeno braseiro, e ali, no calor bruxuleante, ela começou a me falar das suas aflições.
A Hora das Bruxas, vol. 1
Anne Rice
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