26 de dez. de 2010

Judie

(30/11/2008. Apenas um pouco de nostalgia de bons tempos... Escrito por Luan R)

Capítulo 1

Era 1h da manhã quando Antonio acordou. Seus olhos estavam vermelhos e ele se sentia estufado, havia um gosto ácido em sua garganta, que também parecia estufada. O espelho no seu quarto lhe mostrou a vermelhidão de seus olhos. O menino lembrou-se que comera demais antes de dormir.
Ligou o computador com o pé e desceu até a cozinha, abriu a geladeira e tomou um gole de suco de laranja direto da caixa. Estava se sentindo péssimo.
Voltou para o quarto e entrou na internet. George estava online:
- Oi, Tonin.
- Sabia que você estaria acordado – digitou Antônio em resposta -. Tem alguém aí?
- Não, a Camila estava aqui, acabou de sair. Tem meia garrafa de vodca aqui. Vem para cá.
- Vou sim. Em meia hora eu estou aí. Até.
- Até.
Antonio pegou seu maço de cigarros, seu isqueiro e o que havia sobrado de uma caixa de suco concentrado de maçã na geladeira. Penteou os cabelos negros de lisos e vestiu as roupas que pareciam menos amarrotadas. Acendeu um cigarro e foi caminhando calmamente pelas ruas escuras em direção a casa de George, um amigo que morava a poucas quadras de sua casa.
Era madrugada de sábado para domingo e as ruas estavam desertas naquela parte da cidade. Enquanto olhava a fumaça oriunda de seus pulmões se dissipar pelo ar, Antonio se lembrou do episódio deprimente que vivenciara na tarde de quinta no banheiro da escola. Enquanto urinava no mictório percebeu que era observado por um garoto magrelo e alto que fingia lavar as mãos na pia. Antonio tinha quinze anos de idade e o garoto parecia ser mais velho que ele.
Antonio não disse nada a ninguém, pois não considerava o acontecimento algo interessante o suficiente para ser compartilhado. Era apenas deprimente que um rapaz alto e magrelo, com um estilinho ridículo de topete moldado a gel, com todas aquelas espinhas de punheteiro, ficasse olhando os outros rapazes mijarem. Isto não é interessante, ele não ia contar a ninguém, decidira naquele momento.
Por um instante Antonio se sentiu bem. Pensar que a altura podia ajudar um cara a parecer mais deprimente do que já era uma coisa boa, pois Antonio não gostava de ser o baixinho da turma. Nenhum de seus pais era alto, sobretudo sua mãe, que era nipo-descendente. Ele chegou à conclusão que se fosse ele no lugar do menino alto, não seria tão deprimente. Ou seria? Ele não sabia. Nem importava mais.
Sua mente maquinava pequenas vinganças irrealizáveis. Seria legal ridiculariza-lo, isto sim seria uma coisa interessante. Mas o que Antonio poderia fazer? Ele nem sabia se desejava mesmo o mal para o garoto. De certo modo, ele até sentia pena dele. Pena que só aumentavam seu desejo de vingança, afinal, por que um sujeito tem que ser tão deplorável a ponto de despertar pena?
Dar-se conta, mais uma vez, de que um estranho havia visto seu pau de propósito fez Antonio querer esmurrar o garoto, quebrar aquele nariz grande com um chute. O rosto do rapaz estava gravado na cabeça de Antonio como uma foto. Aquilo o assustava ao mesmo tempo em que o irritava. Quebrar aquele nariz com um chute: era isto que Antonio fantasiava, mas não estava mais irritado, a nicotina, as silhuetas nas sombras das ruas, os latidos distantes dos cães da viznhança e o barulho dos próprios passos não permitiriam que ele mantivesse um estado emocional por muito tempo.
- Por que você não faz? – disse uma figura feminina sentada na calçada de uma casa amarela.
- Fazer o que? – perguntou Antonio que caminhava ainda mais devagar agora.
- O que você estava pensando.
- Não estava pensando em nada.
- Impossível – disse a moça voltando o olhar vago para o outro lado enquanto Antonio se afastava.
- É... – disse Antonio sem parar de andar.
Era uma moça bonita, usava botas cano-alto e meia-calça pretas, uma saia rodada rosa até o joelho, parecia ser de seda. Usava um espécie de terno risca-giz escuro pequeno que sobrepunha peças de roupa que Antonio não teve tempo de observar. Na cabeça uma touca de inverno estilo boliviana e os cabelos negros caiam-lhe até a altura dos seios. Tinha pele clara e usava batom vermelho nos belos lábios. Uma figura estranha e solitária que Antonio deixou para trás.
A caminhada fez bem ao menino, o mal-estar havia passado. O garoto acendeu outro cigarro e, olhando para o céu limpo e sem lua, deu uma longa tragada. Entre a fumaça, entre as estrelas, ele achou ter visto um ponto brilhante, uma estrela melhor que chegou e desapareceu numa fração de segundo. Uma ilusão certamente, mas quem sabe um bom sinal, talvez?
Antonio entrou na casa de George pelo portão, que estava aberto. Enquanto caminhava em direção a porta percebeu que outro episódio pitoresco havia lhe ocorrido, mas nem tão pitoresco a ponto de ser interessante o suficiente para que Antonio quisesse compartilhar com alguém.
Antonio bateu na porta enquanto pisava na bituca de cigarro que ele havia acabado de jogar no chão.


- Iaê! Devia ter vindo mais cedo, vadia – disse George abrindo a porta.
- Eu devia estar dormindo, isso sim. Que zona! Quem você disse que estava aqui? – dizia Antônio enquanto tirava os tênis, encostado na porta, agora fechada.
- Eu não disse, falei do meu primo só. Mas o Tatalo, a Jasmine e a Peitão estavam aqui mais cedo. A Jasmine perguntou de você, disse pra eu te ligar e tals, mas eu já...
- Vai cagar, vai.
O George era um rapaz alto e bonito, um ano mais velho que Antônio. Tinha olhos verdes, pele parda, lábios grossos assim como seus cabelos. Ele vivia pra lá e pra cá de bicicleta, sempre vestido praticamente do mesmo jeito e com a barba quase sempre por fazer. George tinha dentes perfeitos e um sorriso poderoso, sempre acompanhado de um discreto jogar de ombros que conseguia faze-lo parecer meio tímido, o que estava longe de ser verdade. George era um bom rapaz e Antônio gostava dele, apesar de achar o sorriso dele a coisa mais cínica que ele já teve a oportunidade de ver.
-Está bem, ela não perguntou de você. Mas eu falei para ela que você talvez estivesse aqui. E sabe, ela entrou meio que olhando para ver se tinha alguém aqui.
- Besteira sua – Estavam voltando da cozinha com restos de comida: pizza, frango e gelatina.
“A propósito – continuou Antônio -, quem é a menina que mora na casa amarela na rua de baixo?"
- Sei lá, não sei de casa amarela nenhuma.
-Você é burro, ein? Uma casa inteirinha amarela...
- Não chame de burro a quem lhe dá de comer – disse George fazendo uma cara de choro digna de uma tragédia grega, então seu telefone tocou e a expressão se desfez imediatamente. George atendeu e não ficou nem quarenta segundos ao fone.
-Quem era?
-A Camila, aquela Peitão mentirosa! Disse que ia embora dormir, porque estava com dor de cabeça e foi atrás de festa por aí...
Pela primeira vez desde que tinha acordado, Antônio riu: “Essa Camila não presta”.
- Pelo menos ela achou uma festa, disse que está boa até. É na rua da caixa d’água. Põe meu almoço de amanhã de volta na geladeira, deve ter o que comer lá.
Era por volta das 2h30m quando os dois rapazes saíram andando pelas ruas com uma garrafa de vodca na mão, rumo a uma casa que ficava a uns vinte minutos de distância a pé.


Na cidade havia uma avenida que cortava todo o centro da cidade além de outros bairros. Num bairro nobre que ela cruzava, havia um prédio abandonado de uma empresa falida que, no fundo de seu terreno tinha uma grande caixa d’agua amarela que servia como ponto de referencia na cidade. Na entrada posterior do terreno, na rua de baixo da avenida, ficava a rua para onde a festa acontecia.
A rua estava mal iluminada, pois havia muitas árvores cobrindo a luz dos postes, boa parte delas estava na calçada da Caixa D’Água. A rua estava tomada pelo som de Blues vindo da casa onde a festa acontecia. Alto o bastante para ser ouvido por toda a rua, mas não o suficiente para incomodar os vizinhos, aparentemente.
Quando George e Antônio chegaram, se depararam com uma festa bem sucedida, apesar do horário. Havia vários grupos de pessoas ao longo da rua.
De uma das rodas nas calçadas se levantou uma menina de cabelos lisos e bem claros e, sorrindo, começou a acenar para os dois rapazes. Camila começou a dançar de forma adoravelmente idiota enquanto acenava – o que indicava que ela já estava bêbada - até os garotos chegarem e cumprimentarem-na.
O grupo que estava Camila era formado por Igor, Jéssica, Jasmine e Tatalo, que eram da mesma classe de George, além do Marquinhos que era da classe do Antônio.
No meio deles, na calçada, havia cerveja, conhaque, refrigerante e um DVD dos Doors, que eles haviam pegado da casa do dono da festa. Antônio deixou a vodca junto com o que pessoal havia pegado e acendeu um cigarro. Quando se sentou o Tatalo fez um sinal de “jóia?” com um sorriso simpático no rosto para o Antônio, que respondeu com o mesmo sinal. Enquanto fumava vendo a Camila Peitão se explicar sobre a falsa dor de cabeça dela e o George rindo enquanto fingia que acreditava no que ela dizia, Antônio começou a se perguntar por que os dois ainda insistiam em chamar aquilo de namoro. Eles viviam traindo um ao outro, e estava mais do que claro que eles só estavam juntos por causa do sexo.
A Peitão, como é de se imaginar, tinha seios enormes. O George vivia contando como eles pulavam quando eles faziam de sexo, ou as diversas coisas que ele já havia feito com eles. Antônio sabia que George nunca tinha feito nada de mais com os seios da Camila: não parecia ser o estilo dele e Antônio sabia quando George estava mentindo. George não tinha lá um compromisso muito grande com a verdade, estava aumentando um pouco aqui ou ali e era bom ouvir as mentiras inofensivas dele: tudo ficava mais engraçado quando ele mentia. Antônio até suspeitava que George mentia mais para ele do que para qualquer outra pessoa, isso porque George sabia que não enganava o Antônio. Será que era isso que a Camila gostava nele, o fato dele ser divertido? Tudo bem que o George era bonito e tinha uma super lábia, mas a Camila era uma das meninas mais paqueradas da escola, Antônio ainda tentava desvendar porque ela nunca o largava, talvez o George...
- Por que você não foi à aula ontem? – Perguntou o Marquinhos, interrompendo os pensamentos de Antonio.
- Não foi ontem a prova do Rocha? Faltei porque não sei nada – respondeu o rapaz.
- Foi fácil.
-Deve ter sido, mas eu não sei nada, vou ver se ele não me passa a prova outro dia. Vou dizer que estava doente ou algo assim.
- É bem capaz que ele te passe, o Rocha é legal.
E a conversa morreu aí. O Marcos era um garoto ruivo e baixinho, de pele extremamente branca, cheia de pintas marrons e algumas poucas sardas no rosto. Ele era muito gente-boa, mas meio tímido. O Antônio sempre o procurava quando precisava de ajuda com Biologia ou Inglês, portanto, de certa forma, o Antônio era grato ao fato do Marquinhos sempre ajuda-lo com a maior boa vontade. Mas para falar a verdade, o Antônio não sabia se gostava de alguém que puxava conversa, mas não sabia leva-la a diante. Por que não fica quieto, então? Por que uma boca fechada incomoda tanto as pessoas assim? O Marcos não precisava se sentir desconfortável por não ter nada interessante para dizer, para o Antônio, só a presença do Marquinhos já era boa coisa. Não precisava falar nada. E estava meio frio, o que o Marcos estava fazendo de shorts?
Depois que a rápida conversa com o Marcos acabou, Antônio começou a observar as pessoas na rua, fingindo que tinha algum interesse no que elas faziam ao mesmo tempo em que se achava um idiota por ficar bancando o blasé só porque fulano não sabia conversar. Enquanto isso o George estava falando algo sobre um filme que ele havia assistido e todos do grupo estavam com atenção voltada para o ele naquele momento, inclusive a Jasmine.
A Jasmine era a namorada do Tatalo, mas Antônio gostava dela, talvez mais do que devesse. O Antônio adorava o Tatalo, mas não se sentia culpado por desejar a namorada dele, pois ele sabia que ela era doida para dar para o George, estava na cara dela... Como a Peitão não percebia? Ou como ela fingia que não percebia? O George devia saber também, assim como sabia que o Antônio gostava da Jasmine, mesmo sem ele ter dito nada. Provavelmente o único que não havia percebido era o Tatalo, e dava dó dele por isso. Porque o Tatalo era, na opinião do Antônio, o cara mais legal que ele conhecia, ou quase isso.
- Olha lá, gente. É a namorada do cara que está dando a festa – falou a Camila interrompendo o George. – Não disse que ela era estranha, Jasmine?
Caminhado pelo meio da rua vinha uma mulher de braços cruzados. Não dava para ver o seu rosto, mas Antônio reconheceu na hora: era a moça da casa amarela.
- Era dela que estava falando, George, a menina lá da casa amarela.
- Nunca vi essa aí. Não deve ser de lá, não, Toninho.
- Ela mora na rua de cima, eu estudei com ela na oitava. Chama Judie - disse a Jéssica.
- Judie? Nome estranho da porra – observou a Peitão.
A moça estava usando uma jaqueta sobre o terninho, agora. Devia estar com frio também. Ela foi andando pelo meio da rua e entrou direto na casa da festa. Antônio a observando teve vontade de entrar na casa também.



-Vamos entrar? – disse o Antônio.
- Onde? – perguntou o Tatalo.
- Na casa, oras.
- Não – disse a Camila -, o pessoal que está lá dentro é super metido. Ficam lá dando uma de intelectuais. Se eu entrar lá de novo ponho fogo na casa – e começou a rir.
- Fora que me viram mexendo nos DVDs – disse o Marquinhos -, se derem falta do dos Door sobra pra mim.
- Aquela menina, a Judie – disse a Jéssica -, até ano passado ela vendia maconha...
- Demorou, então! – disse o Igor.
O Igor era o namorado da Jéssica, e era azedo igual a ela. Ele tinha 17 anos e usava barba, tinha cabelo louro encaracolado, era meio gordo mas estava sempre bem vestido. A Jéssica era magra, tinha cabelos castanhos cacheados da cor de seus olhos. Diferente da Camila, a Jéssica não se misturava muito, nem tinha muita intimidade com o Antônio. O Igor só se dava bem com o George, o que não era nenhum mérito. Mas pelo menos bêbados eles eram um casal mais legal. O Igor adorava maconha.
- Vamos lá então – disse o George.
- Eu fico aqui olhando as coisas – disse o Marquinhos.
- Imagina, dá o DVD aí – a Camila pega o DVD e põe na bolsa dela – ninguém vai mexer nessas garrafas aí não.
- Ele está com medo de alguém falar merda para ele por causa do DVD – falou o Igor com o costumeiro desdém ao se referir ao Marcos.
- Imagina, Marquin’. Está comigo está com Deus. Quero ver alguém pra me peitar – disse a Camila rindo, e quem entendeu riu também.


Havia um grupo de fumantes na porta da casa e outro só de garotos com franja na sala de estar. O grupo de Antônio ignorou ambos. Para não ficarem em bando, quando chegaram ao corredor perto da cozinha, resolveram se separar pela casa. O Igor, a Jasmine e a Camila foram socializar com o pessoal que estava na sala. O Tatalo e o George foram ao banheiro. O Antônio, que estava com um pouco de fome, chamou o Marcos para ir até a cozinha ver se encontrava algo para comer e a Jéssica os acompanhou. Depois a Jéssica foi procurar a Judie para saber se ela ainda era do “ramo”, ou se sabia de alguém ali que podia vender a erva para eles.
O Antônio encontrou pedaços de bolo sobre a mesa – indicando que eles estavam numa festa de aniversário – e meia garrafa de vinho na geladeira. Por um instante Antônio achou graça no fato de, mesmo após ter bebido uma garrafa de cerveja, o Marquinhos ainda parecia meio tenso. Neste momento Antonio resolveu puxar conversa sobre qualquer coisa como Marquinhos, mas este resolveu ir ao banheiro:
- Acho que não agüento mais, tenho que mijar! – “Então ele não estava tenso, só apertado...” concluiu o Antonio.
- Por que não foi com o Tatalo e George ao invés de ficar segurando?
- Acho que eu ia ter que ficar esperando na porta de qualquer jeito.
- É, acho que sim.
E então o Marquinhos saiu da cozinha rumo ao banheiro. Neste momento a Judie entrou. Com uma faca na mão e o batom meio borrado, ela olhou para Antonio e disse:
- Vim cortar mais bolo.
- Fique a vontade – respondeu o Antonio, um tanto envergonhado por estar com a mão cheia de bolo. De perto, Antonio pôde perceber que ela era, de fato, muito bonita e atraente.
- E então, você fez o que estava pensando?
- Não estava pensando em nada de mais. Err... Uma amiga minha estava te procurando. Ela disse que você vende...
- Falei com ela, mas não vendo mais erva, só pílulas, agora. São mais intensas que erva, porém não fedem nem dão fome. Quer uma?
- Não curto pílulas. Nem tenho dinheiro, também.
- Se me disser o que estava pensando a primeira é cortesia.
Nesse momento Antonio olhou dentro dos olhos verdes dela e percebeu que por trás daquele olhar penetrante havia uma pessoa intensa, alguém que não prestava, mas que ao mesmo tempo era de confiança, alguém como ele. Antonio teve certeza que ele e aquela sensual moça estranha eram farinha do mesmo saco, e disse:
- Eu estava pensado em quebrar o nariz de um merda aí.
- E por que não o faz?
- Ele é bem mais alto e forte que eu. Eu nunca teria coragem. Nem sei por onde aquele cara anda, também.
- Se o problema é coragem eu tenho a pílula ideal para você, eu chamo-a de berserk – disse a garota tirando uma coisa que parecia um porta-moedas do meio dos peitos. Judie abriu a bolsinha e tirou uma pílula vermelha de dentro. – Toma, ou será que você também não tem coragem suficiente para tomar uma pílula?
- Dá aí – Antonio um pouco por impulso, um pouco por ceder a provocação e um pouco para tentar impressionar a garota que estava na sua frente e que ele desejava sinceramente beijar, colocou a pílula na boca e a tragou garganta abaixo com um gole de vinho.
- Agora você já pode fazer o que estava pensando. Essas pílulas são mágicas, elas podem realizar tudo o que desejamos – disse Judie aproximando seu rosto cada vez mais ao do menino. Antonio pensou que tudo o que ele desejava naquele momento era beijar aqueles lábios borrados de batom dela. O desejo estava prestes a se realizar. Talvez a pílula fosse mesmo mágica:
- É? – sussurrou o Antonio.
- Sim – disse a Judie afastando-se do garoto de forma repentina. – Eu, por exemplo, acho meu namorado fenomenal, mas ele tem muitas espinhas, começaram a surgir mais do que o normal de uns meses pra cá. – Antonio lembrou que ela tinha namorado e, neste momento sentiu raiva da garota que havia acabado de fazê-lo engolir uma pílula que ele nem sabia do que era feita. Então o Antonio começou a sentir certa tontura.
“Então – Judie continuou a dizer – eu dei a ele uma pílula para acabar com espinhas e esta funcionando...
- Do que você esta falando, sua trouxa? De que é feita essa pílula que você me deu? Você me deu remédio pra acne ou algo assim, sua puta? – Antonio estava zonzo.
- Não, eu te dei uma pílula de coragem, da maior qualidade. Minhas pílulas não são boas, amor?
Amor? “Por que ela me chamou de amor?” Perguntou-se Antonio antes de perceber que ela não estava olhando para ele, mas sim para um rapaz loiro e alto atrás deles, um rapaz com várias marcas de espinhas no rosto e que tinha o estranho hábito de observar outros rapazes urinando no banheiro da escola.
Quando Antonio fitou o cara do banheiro, ele viu, literalmente, um letreiro de luzes de néon sobre a cabeça do rapaz, no qual e estava escrito:
“EFEITO BERSERK INICIADO! FAÇA BOM PROVEITO!”
Antonio começou a ver tudo ficar avermelhado, seu coração disparou e ele começou a tremer. Ele estava zonzo, parecia que ia desmaiar. Parecia que não tinha mais controle sobre si.


No corredor do banheiro, o Marquinhos estava quase molhando as calças quando finalmente resolveu bater na porta:
- Ow! Vai demorar muito? Estou muito apertado!
- Eu e o Tatalo que estamos aqui, seu tonto! Entra logo! – Berrou o George enquanto destrancava a fechadura.
O Marquinhos já entrou abaixando as calças e mais da metade do que ele urinou caiu no chão. Depois que finalmente se aliviou, o Marquinhos percebeu que o George e o Tatalo não só haviam ido juntos ao banheiro, mas também haviam entrado juntos, como as garotas costumam fazer. Por maior estranheza que esse comportamento despreocupado dos dois pudesse causar, Marcos sentiu uma boa dose inveja da amizade dos dois: ele não tinha uma intimidade assim com ninguém.
George e Tatalo estavam revirando o armário do banheiro, provavelmente iam levar algumas coisas embora. Não que eles precisassem, ou que tivessem o hábito de furtar coisas, mas não era todo dia que se tinha um armário de ricos inteirinho para si.
Enquanto prendia o cinto, Marquinhos foi se aproximando da dupla, talvez levasse alguma coisa embora também, a Camila já o havia convencido a furtar o DVD do The Doors mais cedo, mesmo.
- Olha que caliente este perfume, deve ser da mãe dele – disse o Tatalo para o Marquinhos ao perceber que este se aproximava.
O Marquinhos ia pegar o frasco para cheirar o perfume quando os meninos ouviram um berro vindo da cozinha.
- Opa! Finalmente um barraco! – o George foi destrancando a porta, animado, e em seguida disparou em direção a cozinha com o Marcos e o Tatalo atrás dele.

O corredor que dava para a cozinha estava intransitável com umas 12 pessoas na porta. George, que era alto, tentou enxergar o que estava acontecendo ficando na ponta dos pés, apoiando-se nos ombros do Tatalo, mas quando ele ouviu a voz de Antonio – Me solta, caralho! – começou a abrir caminho entre as pessoas de forma nada gentil, com Tatalo e Marcos na sua cola. Quando os três finalmente conseguiram ver o que estava acontecendo, encontraram Mateus, o dono da festa, sentado no chão todo com o nariz sagrando muito. Antonio estava sendo prensado na parede pelo pescoço por um rapaz bem mais velho que o mandava calar a boa o tempo todo. Sua boca estava sangrando.
Era uma cena pavorosa: Antonio, mesmo com o sangue nos lábios e a voz abafada pela pressão na garganta continuava a soltar palavrões e provocações de todos os tipos. George se aproximou do rapaz que prendia seu amigo e começou a tentar dialogar, como era de sua natureza:
- Ouw, cara. Solta ele. Eu não sei o que aconteceu, mas ele não faria mal a uma mosca. Eu...
- Cala boca! – disse um outro rapaz barbudo que parecia estar enfurecido – Você está com esse merdinha que chega à festa dos outros sem ser convidado e arma uma putaria destas? – Enquanto falava, o rapaz dava leves, porém firmes tapas no rosto do George que recuava em direção à porta. – Quem mais está com vocês? Quem mais vai levar uma surra hoje? – George estava apavorado, toda aquela agressividade o estava deixando realmente assustado.
O Tatalo, percebendo que a situação era das mais graves, pediu para que o Marcos fosse embora antes de investir contra o rapaz que prensava o Antonio contra a parece:
- Para com isso, cacete! Olha o tamanho do moleque – berrava o Tatalo enquanto puxava o braço do rapaz que o mandou se afastar com uma voz firme e um olhar inquisidor. Quando Tatalo finalmente conseguiu soltar o Antonio, o outro rapaz deu-lhe um soco nas costelas que fez com que o Tatalo não se agüentasse de pé. Quando Tatalo, no chão, começou a ser chutado, foi quando a Camila entrou berrando pela outra porta na cozinha, e quando o George começou a chorar, e quando o Marquinhos finalmente obedeceu ao Tatalo indo pra fora. E quando, antes de levar um soco no estomago e desmaiar, Antonio viu a Judie. Encostada na pia ela observava a cena com uma expressão calma e, antes da vista do Antonio escurecer e ele cair inconsciente, ele ouviu a voz da Judie dizendo “Chega!”.


Estava muito escuro na rua. As luzes dos postes estavam falhando e no final da rua havia uma casa amarela. Na calçada da casa uma moça acendia um cigarro. Quando se aproximou da casa, dois cães grandes foram até as grades e começaram a latir para Antonio. Gatos miando das mais diversas cores e variedades começaram a sair de um buraco no forro da casa e enfileirarem-se sobre o as telhas da área que dava pra a rua. Pássaros começaram a fazer barulhos escondidos nas arvores. Sobre o cume do telhado da casa, onde a lua cheia semi-escondida pelas nuvens brilhava, um letreiro de luzes de néon se ascendeu, no mesmo instante que dois bueiros, simetricamente posicionados dos lados da casa, soltaram grandes baforadas de vapor. Nele se lia:
“EFEITO BERSERK CONCLUIDO COM LOUVOR! O Grupo 7th Nail agradece a sua preferência.”
E neste momento os cães, os gatos e os pássaros silenciaram. As lâmpadas dos postes se apagaram. A lua começou a perdeu seu brilho e nada mais podia ser visto.

Antonio começou a sentir o ferroso gosto de sangue na boca, havia um cheiro de perfume masculino no ar e ele sentia dores em mais de uma parte do corpo. Seus braços estavam ao redor do pescoço do Igor e suas pernas sobre os antebraços dele.
- Me põe no chão, Igor.
- Cala a boca.
De um lado deles, a Jéssica caminhava visivelmente irritada. Do outro, Jasmine e Ítalo caminhavam abraçados. À frente, Camila e George caminhavam de mãos dadas. Todos estavam em silêncio. George estava com uma das mãos nas costas, indicando que ele levara uma pancada naquela região. O Tatalo estava agarrado à Jasmine, ela estava com a mão sobre a cabeça dele, que estava baixa, próxima aos peitos dela.
Antonio não estava se sentindo confortável sendo carregado nas costas do Igor.
- Igor, eu posso andar.
Desta vez foi o Tatalo quem respondeu calmamente:
- Antonio, cala a sua boca.
Depois ouvir isso do Tatalo, Antonio não disse mais nada, até porque ele não conseguia pensar em mais nada. O Ítalo nunca diria uma coisa dessas a serio. Se ele disse é porque as coisas não estavam nada bem e a culpa disso era unicamente de Antonio, mesmo ele estando mais confuso do que qualquer um ali.
Em cinco minutos o grupo chegou à casa do George. A Camila entrou imediatamente. George agradeceu o favor do Igor e, se despedindo dele e da Jéssica, entrou na casa atrás da namorada.
- Você fica? – perguntou o Tatalo à Jasmine.
- Não, tudo o que eu quero é deitar na minha cama. Tem certeza que quer ficar aqui? Sua mãe pode fazer um curativo nesse corte no seu queixo. É melhor você ligar para os seus pais.
- Não quero ir embora... Vem Antonio, ninguém vai te carregar até a sua casa – disse o Tatalo sem olhar para o Antonio, sentado no meio-fio.
- Se eu chegar assim em casa eu to ferrado.
- Eu sei – respondeu o Tatalo.
Poucos minutos depois o pai do Igor chegou de carro e levou seu filho, a Jasmine e a Jéssica embora. Talvez pela escuridão da rua, ele nem percebeu que o Antonio e Tatalo estavam acabados. Mas o pai do Igor não percebia nada mesmo.
Quando os meninos entraram na casa, o colchão da cama da mãe do George estava no chão da sala e a Camila estava estendendo um lençol sobre ele, enquanto o George aplicava um band-aid na própria sobrancelha esquerda. Não havia mais ninguém na casa além dos quatro.
- Posso? – perguntou o Tatalo sentando-se no sofá ao lado do George enquanto pegava um dos band-aid para colocar no queixo.
George não falou nada. Colocou a caixa de curativos sobre o sofá, ao lado do Tatalo e apertou amigavelmente o ombro do seu amigo. Sua mão estava tremula, indicando que ele estava abalado ainda. Ainda em silencio, foi para o seu quarto, onde estava a Camila.
Havia travesseiros, cobertores e roupas do George sobre o outro sofá. Enquanto estendia os cobertores sobre o colchão. Antonio imaginou que a Camila estivesse mesmo com raiva dele para arrumar as coisas tão rapidamente e ir paro o quartos sem dar mais as caras.
O Ítalo tirou a roupa que se manchou de vinho no momento em que ele fora ao chão. Certamente vinho da garrafa que o Antonio segurava antes de começar aquela briga inexplicável.
Ítalo, como seu nome indicava, tinha alguma ascendência italiana, mas seu tipo era mais para o de um norte-europeu. Tinha cabelos pretos levemente ondulados, suas feições faciais eram boas e seus olhos negros eram grandes e molhados. Tinha estatura mediana e, mesmo não sendo nem gordo ou atlético, tinha braços e pernas grossos. Sua pele era muito branca e nela Antonio pôde ver umas sete marcas avermelhadas, só nas costas, além de duas na parte posterior das coxas. Aquelas marcas iam ficar feias no outro dia e, vendo-as, Antonio teve vontade de chorar, mas não o fez.
Ítalo foi até a cozinha, encheu uma bacia com água e enfiou suas roupas nela. Em absoluto silêncio, voltou para a sala, vestiu aquelas roupas do George, que ficaram grandes nele, apagou a luz e deitou-se ao lado do Antonio, que já estava deitado.
Antonio não tinha coragem de dizer nada. Este que até então fora, provavelmente, o silêncio mútuo mais angustiante e constrangedor da vida do Antonio, foi quebrado pela voz do Ítalo na escuridão:
- Toninho?
- Fala Ítalo.
- Desculpa.

Um comentário:

  1. Sabia que eu fiz um série de pequenas alterações recentemente neste texto? A história mudou um pouco também, principalmente mais pro finalzinho, que estava muito ruim. Mas só anotações por enquanto.

    Era tão gostoso escrever sabendo que alguém ia ler. E tinha os seus textos também, tão bem escritos... Pensando agora, nós éramos uma versão moderna daqueles intelectuais antigos que ficavam trocando manuscritos.

    Beijos.

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