24 de jul. de 2010

Ser uma Mênade

Você tem de estar pronta para qualquer coisa que Ele queira colocar em você. Você tem de estar aberta para a dor, sim, mas também para o prazer. Se entregar a tristeza mas também a alegria. Aceitar a perda e a abundância. Enfrentar seus medos, mas também suas esperanças. Você não pode manter pedaços do que era antes, porque Ele sabe quando você faz isso. E embora ela não vá te punir (usualmente), Ele pode tentar te persuadir a abandonar isso, e esse raramente é um processo gentil com
Ele. Por “persuadir” Ele usualmente quer dizer “rasgar você e cavar através até que você não possa mais manter nada”.

Dionísio pode ser terrificante, mas uma mênade vê essa face, reconhece seu poder e deseja mais. Uma mênade também pode ser terrificante por si mesma. Como Dionisio, ela não faz as coisas pela metade. Ela salta para um desafio, ou uma oportunidade, ou um lance arriscado, não porque ela é inconsequente, masoquista ou tola, mas porque ela sabe que as melhores coisas da vida só podem ser encontradas quando se arrisca tudo. Dionisio lhe ensinou isso. Quando Dionisio ensinou o primeiro homem a como fazer vinho, esse homem foi morto por seus amigos que acreditaram que ele os tinha envenenado (sim, os dons de Dionisio podem ser as vezes como maldições, especialmente se você resiste ao que Ele dá). Mas então a fabricação de vinho se espalhou pelo mundo, e as pessoas em todo lugar receberam uma forma de brevemente se livrar do sofrimento.

O amor de uma mênade é duro, mas não aprisiona quem ou o que ela ama – porque ela precisa sempre ser independente, precisa sempre ter a escolha de sair pela porta e ir embora, correr pelas montanhas para mudar sua mente. Isso não significa que ela não possa ter um lar e uma vida sólida – mesmo uma vida doméstica – mas que ela precisa escolher estas coisas consciente e deliberadamente, e ser capaz de fazer outras escolhas se necessário, ou se as circunstâncias nos desejos do seu coração mudarem. Suas únicas promessas são para Dionisio, e Ele sabe que ela não pode ser amarrada a nada, mesmo a Ele, se isso não for mais seu caminho. Não, você não precisa ser uma mênade por toda a vida. Mas não importa se é por toda a vida, alguns anos, uma estação, ou uma noite inacreditável, você precisa se entregar completamente se você está nisso.

Não é fácil – ser vulnerável e aberta, ser passional e corajosa para se ver preenchida por Dionisio ou esvaziada de si mesma, ser livre, e amar um deus. Não são coisas que acontecem em uma noite (exceto talvez pela última, porque se apaixonar por Dionisio pode acontecer em um instante – e então se repetir de novo e de novo eternamente). Ser uma mênade é saber que verá sendo sempre arrancadas as camadas de seu próprio detrito, arrastada para uma dança de resistência e sujeição com Ele por todos os seus dias. Ser uma mênade é se envolver nessa dança e aproveitar, mesmo os momentos desagradáveis e espinhosos, mesmo os momentos “sentir como se estivesse morrendo”, e é claro, cada momento de prazer arrebatador.

Uma mênade é um recipiente para ser preenchido por qualquer coisa que Ele deseje – com emoção, com êxtase, com vinho, com Ele mesmo. Ele dá têmpera a esse recipiente alternando ferocidade e ternura, como fogo e água, e por causa disso, esse recipiente é muito, muito mais forte. Talvez com algumas arestas desgastadas, mas sempre existe um custo para essas coisas. A paixão vale a pena. Uma vida de beleza elétrica vale esse custo. Encarar o terror e sair do outro lado vale isso. Conhecer, amar, experienciar Dionisio vale isso. E aquele momento, no meio da dança, do frenesi, ou da celebração, quando você percebe que é só você e Ele no olho do furacão, juntos - isso faz tudo valer a pena.

Santuário de Dionísio

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