
Ah, balzaquiana - ri-me de mim mesma - Teus amigos não te servem para consumo, só para consolo. Já pensou, ter 30 anos, ser bela, ter um corpo bonito e ninguém para tocá-lo? Já que não tenho ninguém, faço-me eu mesma companhia. Quer coisa melhor? Se quero amigos, ouço os livros. Tem melhor conselheiro? Se quero falar, tomo como ouvinte a pena e o tinteiro (a máquina de datilografar também vale). Traço mudas confissões na folha de papel. Pergaminhos do tempo. Se me falta o ouvir, ouço música; se me falta o beijar, aperto os lábios no cristal da taça do sumo escarlate das filhas das videiras; se me falta o tocar, toco-me eu mesma; se me falta acariciar outrem, afago meu gato, tem pelo macio. E assim aprende-se a viver sozinha. Meus olhos passearam o mundo. É assim que se envelhece bem, testemunhando as paisagens da Terra. Ficar parado é o suplício das flores, que vive do ouvir o que os pássaros cantam; a narração das abelhas; o lamento das borboletas, estas bonitas lamentam, e olha que não reclamavam quando eram lagartas (pode uma coisa dessas?). Feliz é a água que escorre o mundo e voa na atmosfera em vapores que se refazem no tempo. Sobe e desce montanhas. Deságua no mar.
Sozinho se nasce, na solidão se vive, e solitário se morre. Amo-me! E meu espelho não me permite desfazer-se de mim.
Kizzy Ysatis - Diário da Sibila Rubra
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