31 de jul. de 2013

O Espírito dos Olhos Tristes

   A chuva batia forte nas janelas do quarto, a água escorria pelas paredes do castelo, banhando pedra por pedra. A Princesa observava o dia escuro, desgostosa da vida. O vazio em seu peito tornava-se cada vez maior. Vestiu seu manto negro e pôs-se a caminhar pelos bosques do Reino. O vento era frio, e as plantas, caladas. Algo havia acontecido. 'Talvez a morte de algum monstro', pensou. Andava sem rumo, até não sentir mais seus joelhos. Procurou o túnel debaixo do morro para descansar. Tateou a parede até encontrar um local distante o suficiente da entrada para acomodar-se.  Notou algo incomum: uma pequena fonte de luz no chão. O túnel do bosque nunca fora iluminado. Aproximou-se com cautela, protegendo os olhos. Era uma figura masculina, que adormecia encolhida.
   O Reino era naturalmente sem brilho. A luz daquele ser a assustava. Era como faíscas, essa luz tentava se manter com todas as suas forças. A Princesa não tinha nada a perder. Todos os dias eram iguais, como se assistisse sempre ao mesmo filme. Decidiu tocá-lo. 'Se for acontecer algo comigo, que aconteça de uma vez!'.
   Ele despertou, assustado. A aura luminosa havia sumido. Agora estavam os dois desconhecidos às escuras. Ela ouviu passos em direção à entrada do túnel. Correu atrás do ser. Ele estava caído, apoiado no tronco de uma árvore, quase que despido, suas poucas roupas rasgadas, e sua pele apresentava ferimentos, arranhões. Era um moço esguio. A Princesa andou lentamente em sua direção, os braços ligeiramente abertos com o manto, em sinal de que vinha em paz. Ajoelhou-se em frente ao rapaz. Ele levantou a cabeça, revelando belos olhos tristes, como dois poços de águas negras. Naquele momento a Princesa havia jogado sua alma nas profundezas daqueles olhos e ela sabia que não poderia resgatá-la.
   Ela perguntou o que aconteceu para um pobre jovem se encontrar em tal estado. Ele nada disse. Parecia tão fraco a ponto de não conseguir proferir som algum. A Princesa pegou na mão do ferido. Seu pulso liberava sangue. Ela o lambeu até retirar todo líquido escarlate de sua pele clara. Líquido doce, muito doce.
  Deveria tomar uma atitude depressa. Retirou das suas vestes um pequeno artefato, parecido com uma flauta. Não emitiu nenhum som ao ser soprado. Em alguns instantes, porém, surge uma pantera negra. A Princesa pousa a mão sobre a cabeça do animal, e este adquire uma grande forma humanoide, mantendo os pelos em todo o corpo, patas em lugar dos pés, e a mesma cabeça. Era um guardião das florestas do Reino. 'Não se preocupe, ficará tudo bem', a Princesa diz ao jovem, e a Pantera o carrega em seus braços. Ele ficará protegido do frio com a pelagem o envolvendo.

   O rapaz acorda deitado numa cama, debaixo de cobertores macios e pesados. A Princesa sentada ao seu lado. 'Estava esperando que você acordasse. Consegue falar comigo?', diz enquanto despeja água numa taça e a oferece. Ele bebe tudo de uma vez. 'Estou perdendo o doce em mim!'. A Princesa relaciona a frase ao sabor do sangue. Muito doce. 'Você não está mais perdendo sangue, já está se curando'. Ele retira as cobertas afobadamente. 'Preciso repor o doce!'. 'Olha, eu vou te trazer comida. Mas por favor fique em repouso'.
   Chegando com uma enorme bandeja, contendo belas fatias de carne branca, cujo cheiro delicioso se espalhava pelos corredores do castelo, muitas frutas, pequenos bolos e barras de chocolate. Tudo fresco. O hóspede simplesmente ignora o resto da bandeja, dando atenção apenas aos chocolates.  Devora-os, lambe até as pontas dos dedos. Diz que se sente satisfeito e fortalecido. 'Você não deseja comer mais nada? Pois não sabe o que está perdendo'. A Princesa não entendia como alguém poderia se sustentar apenas com chocolates, ele deveria ser de um Reino muito distante. Mas... como?

   Perguntou-lhe seu nome. Ele não sabia responder. Disse que não conseguia se lembrar de algumas coisas, sabia que era porque tinha mudado de região. Algumas informações deveriam permanecer na sua região natal e apenas lá. 'Eu fui expulso do meu reino. Me diziam que eu não seria mais bem-vindo lá, pois meus sentimentos estavam apagando minha luz e me levariam a um local que possuísse a mesma frequência que eles.'
   A Princesa não acreditava que o coração daquele moço houvesse se tornado trevas. Ainda restava nele uma essência, a faísca de luz. Algo de infantil, puro. Percebeu que se ele permanecesse vivendo no Reino da escuridão, assim se tornaria. Não seria mais ele mesmo, não seria mais o garoto cujos olhos engoliram sua alma.
   'Volte a dormir, querido, não desperdice sua alma neste local'. A Princesa acariciou os cabelos de seu protegido, deu um longo beijo em cada olho, e pôs-se a sair dos aposentos. 'Princesa', chamou. 'Sim?'. 'Poderia me trazer mais chocolates quando voltar?'. 'Mas é claro. Todos os chocolates do mundo serão teus.'

   A nobreza do Reino possuía o dom da Magia. A Princesa trabalhou na alquimia para criar um fluido de ligação de duas almas. Para os iniciados, o corpo físico é apenas uma carcaça. E a carcaça daquele puro espírito já estava corrompida. Ela continha a essência dele em seu próprio corpo, de quando haviam se encontrado pela primeira vez. Ainda no momento de transição entre os reinos, ingeriu seu sangue doce, o líquido que contém o quinto elemento. Sua essência estava misturada com a dela. 'Perfeito, eu conseguirei salvá-lo'.
   Foi apenas uma questão de tempo para que o corpo do seu caro companheiro parasse de funcionar, e, assim, seu corpo interior viesse a surgir num grande frasco que havia sido preparado justamente para acomodá-lo.
   Os sonhos dele, projetados em todo o vidro, iluminariam as noites de insônia dela. Seriam seus filmes prediletos. Ele lhe contaria histórias para dormir sem precisar de palavras.
   Os habitantes do Reino eram imortais, destinados a viver para sempre num mundo cinzento. A Princesa não podia fazer com que seu protegido voltasse a sua terra. Mas ela pôde fazer com que sua alma fosse preservada junto à dela. Ela não poderia suportar a dor de viver sem admirar aqueles olhos tristes.

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